Quarta-feira, 18 de Agosto de 2004
RECUPERAR A TRADIÇÃO
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A ilha Terceira e a Região nortenha de Macedo de Cavaleiros são os únicos lugares de Portugal onde se joga o emboca com regularidade. Para já, a freguesia de Santa Bárbara é a mais activa na preservação da secular tradição. O Gabinete do Desporto e Tempos Livres da Câmara Municipal de Angra do Heroísmo pretende estender a modalidade a mais localidades. A começar pelos Altares.




Dentro dos chamados desportos tradicionais, o jogo do emboca é, com certeza, um dos mais apreciados na ilha Terceira. No sentido de recuperar a tradição, a Câmara Municipal de Angra do Heroísmo (CMAH), através do respectivo Gabinete do Desporto e Tempos Livres, promoveu na freguesia de Santa Bárbara o I Torneio de Emboca, certame que reuniu uma dúzia de participantes. O triunfo coube a Valdemar Machado, após luta renhida com José Alves e José Carlos Bernardo.
A reportagem do DI/Revista foi conhecer um pouco melhor o que é, de facto, o jogo do emboca. Segundo Valdemar Machado, um dos grandes entusiastas da modalidade, “o emboca presentemente só é praticado na Terceira, sobretudo em Santa Bárbara, e na Região de Macedo de Cavaleiros, em Trás-os-Montes, o que não deixa de ser curioso”. Com o intuito de salvaguardar esta tradição secular “os jogadores mais velhos têm a preocupação de introduzir os mais novos na prática da modalidade”, acrescenta com visível satisfação.
Adianta que “durante cerca de trinta anos não se jogou emboca em Santa Bárbara. Foi então que reunimos um grupo de entusiastas do jogo. Conseguimos o espaço e, mais tarde, o material necessário. A partir daí, nunca mais parámos. Pelo meio, surgiram na ilha Terceira mais dois núcleos de emboca, em Santa Bárbara e nas Cinco Ribeiras, só que não vingaram”.
Recuando algumas décadas no tempo, Valdemar Machado lembra que “o emboca representava muito mais do que um simples jogo. Era um espaço de convívio formidável. Não tínhamos grandes alternativas naquela época. Como tal, entretinhamo-nos a jogar ao emboca. Passávamos tardes inteiras, nomeadamente ao domingo, a praticar a modalidade”.
Sempre com um brilho intenso no olhar, Valdemar Machado não se cansa de chamar à memória episódios de um passado temporal longínquo, mas, pelos vistos, guardados a sete chaves no baú das recordações. “Fazíamos amizades em todos os cantos da ilha. Ninguém gostava de perder, mas imperava o desportivismo e o bom senso”, nota.
O jogo do emboca fez história na ilha Terceira de Jesus Cristo. A multidão corria em massa aos terreiros para apreciar a qualidade técnica dos artistas. “Chegamos a ter praticantes excepcionais. Autênticos mestres na arte de jogar emboca. Por vezes, ficávamos parados a apreciar a perícia dos jogadores mais cotados, até porque a observar também se aprende”, considera o nosso interlocutor, um comunicador por excelência.

DESPORTO ADMIRADO
Elias Coelho é outra das figuras de referência do jogo do emboca. Com a saudade estampada no rosto, recorda “os magníficos jogadores” que conheceu ao longo de tantos e tantos anos. “Naquele tempo, os jogos tradicionais preenchiam as nossas reduzidas horas de lazer. Entre eles, o emboca ocupava um lugar especial, atendendo ao elevado número de entusiastas. Defrontei adversários de enorme talento e participei em partidas inesquecíveis”, assegura.
Acrescenta desde logo que o popular desporto foi sempre “muito apreciado e acarinhado” na freguesia de Santa Bárbara, pelos vistos, um verdadeiro ninho de praticantes. “Santa Bárbara chegou a ser o expoente máximo da modalidade na Terceira, quer na quantidade, quer na qualidade dos atletas, conquanto houvesse bons jogadores um pouco por toda a ilha”, reforça.
O jogo do emboca é igualmente pretexto para que um grupo de “jovens da terceira idade” passe as tardes, em jornadas de franco convívio e alegre camaradagem. “Aproveitamos para reviver outros tempos, em que tudo acontecia de forma diferente. As coisas eram menos agitadas. Estou com 83 anos, mas sinto-me com força e vontade para continuar a jogar”, remata cheio de convicção.

OFERECER CONDIÇÕES
A vereadora da edilidade angrense responsável pelo projecto de recuperação dos chamados desportos de raiz popular, Paula Aguiar, está deveras satisfeita com os resultados alcançados.
“Faz parte dos propósitos da Câmara Municipal de Angra do Heroísmo a recuperação dos jogos tradicionais. Neste contexto, efectuámos um levantamento nas diversas freguesias dos jogos mais usuais e daqueles que ainda se praticam. Propusemo-nos de imediato apoiar e manter em actividade o jogo do emboca, atendendo a que existe em Santa Bárbara um grupo permanente”, declara Paula Aguiar ao DI/Revista.
“Deste modo, a CMAH procedeu a alguns melhoramentos no espaço utilizado para a prática da modalidade em Santa Bárbara, visando a competição e, ao mesmo tempo, o bem estar dos jogadores e acompanhantes. O entusiasmo é enorme. Basta dizer que temos pessoas de várias gerações, incluindo jovens que estão a aprender. Aliás, encontramos gente com mais de 80 anos, mas que mantém um espírito jovial notável”, congratula-se.
No âmbito da política traçada para esta matéria, a autarquia de Angra do Heroísmo pretende, a breve trecho, “recuperar um antigo espaço do jogo do emboca existente nas instalações da Casa do Povo dos Altares, uma vez que os responsáveis também se mostram interessados, o que pode criar um intercâmbio salutar entre as três freguesias vizinhas – Doze Ribeiras, Santa Bárbara e Altares”, sustenta.
Paula Aguiar sublinha que “ainda recentemente fui contactada por um jovem natural da ilha Terceira, estudante na Universidade de Rio Maior, que vai realizar a sua tese com base nos jogos tradicionais. O professor aconselhou-o, então, a que se debruçasse precisamente sobre o jogo do emboca, levando em linha de conta que a modalidade neste momento só é praticada na ilha Terceira e na Região de Macedo de Cavaleiros”.
“Pelo dinamismo que tenho observado nos mais novos, estou em crer que o jogo do emboca não corre o risco de desaparecer entre nós. Quem sabe se no futuro não podemos, inclusive, levar um ou outro dos nossos jogadores a Macedo de Cavaleiros? Seria uma troca de experiências, no mínimo, agradável. Para já, o objectivo prioritário é alargar o jogo do emboca a mais freguesias do concelho, até como forma de sensibilizar a juventude para a modalidade”, sugere.
Depois de apelar para que sejam desenvolvidos “os esforços necessários” para a recuperação da casa onde funciona o núcleo do jogo do emboca de Santa Bárbara, Paula Aguiar, em jeito de conclusão, afirmou que a Câmara Municipal da cidade açoriana Património Mundial “tem uma vasta lista de outros desportos tradicionais que deseja reactivar o mais rapidamente possível”.

JOGOS MUNICIPAIS
Em sequência desta pretensão, a CMAH está a levar a cabo durante o corrente mês de Agosto a VII edição dos Jogos Municipais de Angra do Heroísmo, evento em que os desportos tradicionais assumem, como é hábito, um papel de enorme relevo. Entende o elenco camarário que “a realização dos Jogos Municipais, que tem contado com a participação de diversas freguesias, confirma a importância desta iniciativa autárquica e reforça a sua aceitação, criando condições para o seu prosseguimento”.
“Contando desde o início com a representação significativa das freguesias do concelho, os Jogos Municipais têm constituído um espaço de encontro do desporto para a população, incentivado e dinamizado pelas Juntas de Freguesia, numa perspectiva de acção formativa de participação e solidariedade social”, acrescenta a entidade promotora do certame.
“Tal como nos anos anteriores, pretende-se que através dos VII Jogos Municipais a componente do convívio seja reforçada, mediante a oferta de novos e atractivos programas de recreação que vão permitir aos elementos de todas as freguesias presentes um melhor conhecimento mútuo, levando assim à prática um dos principais objectivos dos Jogos Municipais, criando um espaço de interacção, de convívio e de estímulo da prática desportiva entre as freguesias, dando importância aos interesses recreativos, culturais e afectivos de cada cidadão”, termina.
A VII edição dos Jogos Municipais está dividida em quatro sessões e decorre na zona de banhos da Prainha, parque de estacionamento do Bailão, zona balnear da Silveira e parque do Relvão. “O Peixe Cego”, “Tracção à Corda de Olhos Vendados”, “Triatlo na Cidade” (1ª sessão); “Travessia do Rio”, “Bicicleta Aventura”, “Bowling” (2ª sessão); “Reciclagem”, “Venha Água”, “Estafeta Aquática” (3ª sessão); “Corrida de Orientação”, Salada Tradicional” e “Peddy Paper” (4ª sessão) são os jogos agendados.
Com muita criatividade pelo meio, na edição em curso os responsáveis pretendem melhorar alguns jogos, através de uma reestruturação ou adaptação, de forma a possibilitar outras actividades que possam contribuir para um maior envolvimento de todos os participantes. “Todos estes jogos adaptados ou reestruturados procuram dar resposta aos interesses das pessoas que queiram aderir ao projecto”, garante a organização, preocupada em salvaguardar a riqueza histórica e cultural dos jogos tradicionais, embora não descurando os restantes aspectos mencionados.


RAÍZES DESCONHECIDAS
Virando agulhas noutra direcção, por aquilo que conseguimos apurar junto de alguns especialistas, desconhecem-se com exactidão as origens do jogo do emboca na ilha Terceira. Os próprios manuais existentes sobre jogos tradicionais na Região Autónoma dos Açores não fazem qualquer referência ao secular jogo.
Admite-se, no entanto, que o jogo do emboca possa ter entrado na Terceira da mesma forma que os restantes desportos de matriz popular, eventualmente com outro nome e características algo díspares. Neste quadro, as transformações que entretanto conheceu perdem-se no tempo. Quanto a datas, as dúvidas permanecem.
Todavia, como sublinhou uma das fontes contactadas pelo DI/Revista, “mais importante do que procurar o modo de introdução do jogo do emboca na ilha Terceira é, sem sombra de dúvida, encontrar as soluções adequadas para que o mesmo continue a ser praticado e passe de geração em geração, uma vez que estamos a falar de uma riqueza cultural incalculável”.
Seguro é que jogar ao emboca exige uma argola com espeto de ferro para se introduzir no chão, duas bolas de madeira (com o diâmetro tão largo quanto possível, mas que passem na argola de ferro), duas palhetas de madeira e um calço de madeira. Nada mais. Por outro lado, trata-se de um jogo com regras bastante acessíveis.


publicado por sys.systen às 21:13
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